Essa aula começamos a filmar
algumas das cenas que escrevemos. O primeiro grupo a gravar foi o da Júlia e do
Vinicius. A cena deles era uma continuação de uma cena que os dois, junto com
Sarah e Naiara fizeram. Sarah se fazia de santa quando na verdade era o oposto
disso. Naiara se fazia de amiga de Sarah quando na verdade queria o menino que
ela gostava. Júlia na frente delas influencia que elas fizessem coisas erradas
mas na frente do padre/pastor dizia o oposto. Nessa cena gravada Julia, membra
da Igreja e Vinicius, padre tinham um caso. Vini queria terminar, disse que não
sentir mais prazer por ela e queria terminar. Júlia não aceitou a rejeição e
começou a ameaça-lo com a história e as provas que ela tinha contra ele, o que
se descobrissem acaba com a carreira dele. Só dava pra assistir a cena de fora,
até Vinicius entrar dentro da sala e de longe não dava pra observar a atuação
deles. A cena foi filmada algumas vezes, foram feitos vários takes desde a hora
da entrada de cada um. Close no Vini rezando com a Nossa Senhora, até a entrada
na sala, Julia vindo. Filmar é um trabalho, ainda mais cinema. Precisa repetir
e repetir. Por isso é importante a marcação e o texto decorado, fala interna
pra trazer sempre a emoção proposta, porque precisa ser filmado de vários ângulos
e as vezes acabamos perdendo a emoção, ou o texto. É importante aquilo estar
bem presente no corpo no corpo do ator. Pude perceber que Julia tem aquele
jeito dela mesmo, pelo modo que ela entrava e saia da sala dava pra vê o Jeito
que ela entrava de uma forma e saia um pouco mais “revoltadinho”. Vini desde o início
estava concentrado, aquela paz serena rezando, andando, bem no personagem.
Quando ele saiu ele tinha emoção ali, alguma tensão em seus olhos. Espero que
ele tenha conseguido chegar na proposta da emoção com contenção.
Depois fomos gravar a cena da
Rafa e da Yule, gravamos na rampa do prédio de direito. O prédio que ama o
curso de Artes Cênicas. A cena dela tinha o princípio da inveja, ciúmes. Essa
cena tinha continuidade de uma cena onde as duas gravaram, duas irmãs, uma
ajudando a outra com o convite de formatura e cada palavra que elas falavam
durante essa primeira cena era nítida a fala interna, que por sinal a proposta
era fala interna contraria, então tudo que falávamos tinha como fala interna
uma coisa oposta do tipo eu falo “eu te amo” mas na minha mente é “eu vou te
matar”, assim como fizemos na nossa cena do sequestro a primeira vez.
A cena aconteceu na rampa então
eu só conseguia vê um pouco e bem disfarçadamente porque fiquei preocupada em aparecer
na cena. A cena era da seguinte forma uma delas subia a rampa e um pouco depois
vem a outra correndo e nisso elas começam a brigar e discutir porque ela estava
ali, ela não deveria estar ali, e elas começam a brigar e a se bater. Essa cena
estava tão forte que de lá de baixo dava pra ouvir, e dava uma certa angustia
ouvir porque estava muito real. Era engraçado a reação das pessoas, umas
passavam falando “aff, esse povo de artes cênicas” outras vinham preocupadas
querendo saber o que estava acontecendo, pessoas impacientes querendo subir
para a sala, sem contar que era intervalo, então se lá embaixo estava uma
loucura pra pedir pro pessoal um pouco de paciência e pra esperar terminar a
cena foi difícil e ficamos ouvindo vários múrmuros fiquei imaginando lá em
cima, onde todo mundo queria descer e descer. A cena estava tão boa que minha
vontade era ficar ali, parada, assistindo e admirando aquela atuação tão
verdadeira. Elas realmente se doaram a isso, se dedicarão e fizeram de tudo.
Era engraçado que uma delas estavam procurando por emoção, ligou até para a avó
que traz daquela saudade de vó, e eu entendo e essa estratégica ou ótima,
porque só de lembrar da minha vó eu já tinha vontade de chorar. Dessa vez não
foram gravados muitos take, pelo menos eu imagino que não, porque elas desceram
poucas vezes pra recomeçar a cena.
A
cena me fez pensar um pouco, pensar no método de Hagen, o que será que elas
usaram ali pra ter aquela naturalidade, como diz Rejane em seu texto sobre a
atuação pra cinema: “Ao falarmos “naturalismo”,
propondo-‐o como um dos registros a ser trabalhado nas aulas de atuação para
cinema, estamos nos referindo a uma espécie de dilatação dos efeitos de
cotidianidade, naturalidade, espontaneidade e mimese através do corpo fala e
imagem do ator. Esse registo é construído com algumas operações que os atores
precisam dominar (e é isto que exercitam em aula): a divisão de foco com
pequenas atividades cotidianas e com a fala interna.” O que me fez refletir que
elas trouxeram o naturalismo de uma forma totalmente verdade e mesmo em um
período de trabalho pequeno e sem muitas experiências com a câmera e esse tipo
de atuação, foi a primeira vez que a maioria ali tentou fazer esse tipo de
atuação e foi então que lembrei do texto Notas sobre a experiência e o saber de
Experiência de Jorge Larrosa Bondía que diz sobre a experiência
“A experiência é o
que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o
que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao
mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está
organizado para que nada nos aconteça.1 Walter Benjamin, em um texto célebre,
já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se
passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.
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