Essa aula começamos a gravar uma
de nossas cenas. Nosso roteiro é dividido em várias cenas. Esse novo roteiro
deu continuidade a nossa cena do sequestro e decidimos juntar com a cena de
Anderson e Raquel. A primeira cena do sequestro era sobre um menino (Lazaro)
que ia ser sequestrado pelos seus melhores amigos e sua namorada. Cada um tinha
um motivo. Era o exercício de fala interna trocada, o que foi fácil pra mim
falar uma coisa e pensar uma coisa ao contrário. Como atriz percebi que esse
método deu certo pra mim. Também imagino que esse método é usado na hora de
interpretar uma vilã, porque é a cara de vilã. Foi fácil pensar em coisas
aleatórias, e no dia da primeira gravação eu estava meio pra baixo então como
estava meio estressada falas internas oposta a externa foi fácil demais de ser
feita. Como Raquel ajudou na cena com o carro seria legal juntar a cena dela e
de Anderson, que falava sobre pai e filha, a filha ia matar o pai e o pai nem
imaginava. Então com a junção da cena iria ter um impacto legal e uma boa
junção. Gravamos em um espaço diferente do que eu estava imaginando na hora que
fiz minhas falas internas. Fiz um monologo interno gigante. Em uma aula de
teledramaturgia reservada pra isso cheguei a fazer um texto de páginas e páginas
contando sobre o relacionamento frustrado que minha personagem tinha. Gravamos
no prédio rosa, perto dos estúdios de moda. O local era bem legal, parecia uma
casa abandonada mas eu tinha imaginado de outra forma. Imagina um lugar vazio,
tipo uma garagem, ele amarrado, ainda dormindo com um pano preto na cara dele e
então Ismael ia lá e tirava o pano do rosto dele e acordava ele e começando a
cena. Na minha vez imaginei ele sentado naquela cadeira, imaginei provocações, quando
falasse sobre homens até acariciaria o rosto dele com rosto doce e depois batia
no rosto dele com raiva, pensei em cuspir de nojo por tudo que ele tinha me
feito passar. Então eu já tinha imaginado uma cena na minha cabeça mas o local
pediu uma coisa totalmente diferente. Lazaro estaria deitado e tudo que eu
tinha criado tive que adaptar.
Começamos a cena conhecendo o local e Rejane já filmando,
assim como ela fez quando filmamos O Sequestro a primeira vez, ela já chegou
filmando os bastidores. Então levamos lazaro ainda meio tonto e fomos andando
conhecendo o local e tomando cuidado, era tudo improviso. Andamos e tropeçamos
algumas vezes mas conseguimos achar o local onde lazaro ficaria ali, deitado.
Tinha umas cordas, umas coisas velhas, parecia bem um cativeiro. Depois que
lazaro estava em seu lugar e nós nos posicionamos começamos a cena. Ismael foi
até Lazaro para acorda-lo e começar a falar o porque que tinha sequestrado o próprio
primo. Essa parte tivemos que filmar algumas vezes. Ismael estava teatral nessa
parte, não tinha fala interna, não tinha verdade, não tinha pausas, não tinha
jogo. A voz de direção era sussurrar, falar o texto sussurrando, mas ele teve
um pouco de dificuldade, ele começava sussurrando mas acabava voltando para o
teatral. Rejane começou a dizer que se ele não conseguisse não ia ter como
gravar a cena e acho que com essa pressão ele começou a colocar umas falas
internas e também uma pressão maior porque o grupo estava dependendo dele e foi
então que a cena conseguiu fluir. Foi então que eu comecei a gravar, tentava
olhar nos olhos dele e tentava me apoiar no monologo interno que tinha feito e
descrito toda a construção do personagem e do passado da personagem. Também
tinha feito algumas ações, que já falei. Fiquei presa no que eu tinha planejado
não tava igual e tive que tentar adaptar mas na hora eu só fiquei parada e
falava as palavras. Tinha um pouco de ódio naquilo, porque depois que gravei
tinha um pouco de raiva pelo meu corpo, meus músculos estavam um pouco “rígidos”.
Não lembro de ter usado fala interna durante a cena, o que com certeza foi um
erro, porque fala interna é importante e da um ar de naturalidade, mas como
tinha feito não só um, mas vários monólogos contando coisas diferentes no
decorrer da construção do personagem, acho que aquilo ficou, de certa forma, em
mim, até sem saber é como se aquilo fosse real sem eu me esforçar pra pensar ou
lembrar. Knebel fala muito do monologo interno, em um de seus textos, de acordo
com obra de Gorkey, A mãe, ele diz: É um erro pensar que o processo de domínio
do monólogo interno é um processo rápido e fácil. Se adquire pouco a pouco e
como resultado de um grande trabalho por parte do intérprete. A carga
espiritual que o ator precisa trazer consigo à cena exige, como temos dito, uma
profunda penetração no mundo interno da personagem. É preciso que o ator
aprenda a relacionar-se com o personagem por ele criado, não como literatura,
mas com oum ser humano vivo que com ele partilha seus próprios desejos
psicofísicos.
Depois
foi a vez da Raquel gravar com o Lazaro. Eu gosto da atuação da Raquel, ela
passa uma verdade e uma naturalidade em cena. Ela realmente pareceu uma irmã
revoltada e meio psicopata querendo mesmo matar o irmão como vingança. Todos
ali eram apenas um meio termo pra ela conseguir o que queria. E por último foi
a vez de Lazaro. Ele não tinha conseguido chegar a emoção com contenção e
precisou de alguns estímulos do diretor. Então Rejane dava alguns estímulos do
tipo “medo, você ta sendo sequestrado”, “abre os olhos”, “xinga”, “olhe de um
lado pro outro”. Foi bem interessante esse tipo de atuação e como a voz do
diretor pode nos direcionar para onde o trabalho pede e como temos que estar
aberto para fazer o que for o melhor para o trabalho. As vezes temos que fazer
uma coisa por 5 minutos de gravação e na montagem aparecer 5 segundos, mas
temos que estar aberto a qualquer tipo de circunstancia para um bom trabalho.
Uma coisa que me chamou atenção é que o peso da cena só veio a abalar o Lazaro
depois que acabou. Ele passou um tempo grande calado e pensativo, meio com medo
pensando nas palavras ditas. Isso me fez pensar que as vezes um ensaio antes
para trazer a emoção antes seja valido para algumas pessoas, que o estimulo que
elas precisam é viver a cena para poder criar aquelas falas internas ou para
entender o que realmente estava acontecendo.
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