terça-feira, 1 de dezembro de 2015

COISAS ESTRANHAS À VENDA

                               

A performance foi um pouco inusitada, pois era com um aspecto de uma venda meio louca, pois era uma comercialização de vários objetos sem sentido, coisas intimas e outras bem nojentas.
Tudo começou dentro da sala de aula, com vários debates e conversas sobre como fazer a próxima performance, e idéias vai, idéias vem e foi surgindo a idéia de fazer sobre um comercio, e como a nossa turma é muito insana, foram falando que poderia ser de coisas sem sentido. Foi bem absurdo na hora que começaram a falar de levar papel higiênico sujo de bosta, fralda mijada, gorfo de neném, pelos pubianos, pedaços de unha, absorvente sujo de sangue. Só de falar foi aterrorizante, e engraçado, pois realmente não imaginaria que iria acontecer mesmo, que aquilo era verdade.
No dia da performance estava chovendo,mas mesmo assim a performance rolou, foi realizada na entrada da Universidade, na entrada de frente para o prédio rosa, pois lá no horário de 22:00 é mais movimentado.
Ana foi a performer da vez, montou a mesa com as variedades exposta sobre a mesa, com as coisas mais escrotas que eu já vi. Mas estavam tudo dentro de uns potinhos que pareciam bem comestível mesmo.
Havia horas em que ela começava a abordar as pessoas na porta da faculdade dizendo, “boa noite, vamos dar uma olhadinha nas iguarias”
Só de ela falar iguarias eu no meu canto morria de rir, pois soava como algo tão real, de uma vendedora de verdade, fiquei observando as pessoas passarem e olhar, algumas nem dava atenção de olhar e simplesmente viravam-se ou se direcionava para o lado oposto.
Algumas pessoas pararam e quando eles iam até a barraca e viam o que eram saiam rindo, engraçado que vi, foi em um momento que duas moças chegram e perguntaram o que era, e quando a Ana falou e mostrou o cardápio, elas saíram dizendo “que horror”.
É estranho ser abordado por uma pessoa que vende papel higiênico suco de bosta, e absorvente sujos de sangue de menstruação, ou até mesmo pedaços de unhas, que por incrível que pareça foi um produto vendido. Agora eu paro e penso em como ela conseguiu vender uma unha, não sei, mas talvez seja graça que a pessoa estava fazendo e querendo participar da performance, pois pra que serventia serviria aquela unha. Sei que não, mas vai que para ele teria alguma, como para nos teve em fazer a performance.
O estranhamento estava bem nítido nesta performance, pois era algo bem absurdo, que se casava com algo sem sentido, que fez muito sentido para nós que estávamos ali presenciando, em ver como o publico interage com atos assim.
É evidente o estranhamento causado pela performance, principalmente sob a perspectiva do senso comum. Há um desejo de ser compreendido?
Penso que o artista da performance necessita ter um certo desprendimento, para não criar expectativas de como as pessoas vão reagir. Se a performance enquanto linguagem procura uma desestabilização dos padrões ou dos locais, se ela brinca com isso e desestabiliza as relações e os procedimentos da arte, me parece que o artista deveria estar atento para não cair na armadilha de criar expectativas estabilizadas, como quem desestabiliza e se incomoda com a desestabilização que ocorre.
É muito comum as pessoas quererem entender a performance. Essa coisa da fruição da arte a partir de um entendimento racional.  As pessoas sempre fazem perguntas do tipo "O que é isso? Mas o que você está fazendo?"
Há uma certa agonia da nossa sociedade, de precisar entender, ou elaborar um entendimento para poder se situar e ficar confortável.

[...] Não se trata apenas de gerar uma situação, mas de fazer com que cada um viva novas sensações-cinema, como se mesmo dentro de um grupo cada participador pudesse escolher seu filme. Neste sentido, se desconstrói a idéia de um público uno e silencioso diante de narrativas que lhe são estranhas e cria-se um cosmos de sensações produzidas primeiro pelo e no corpo de cada integrante das experiências que se desenvolvem [...] (Maciel, 2007,p.172).


Mnemósine a Deusa Grega da Memória






Já a algum tempo estávamos planejando esta performance. Foi algo que surgiu a partir de vários dos nossos encontros de direção, posso dizer que foi uma performance que todos tiveram participação tanto na elaboração da performance quanto na execução.

A ideia era que trouxéssemos objetos que marcaram a nossa infância, colocando em forma de exposição. Cada um ficou responsável por arrumar o seu “cantinho”.

De início, tínhamos pensado em fazer de baixo das árvores na entrada do prédio de direito. Eu queria muito que fosse neste local, pois a árvore me remete ao tempo. E o tempo me remete a infância. A própria imagem da árvore com os galhos e as folhas balançando já traz um ar de natureza e infância. Eu já estava levando tudo o que eu ia precisar para que fosse de baixo da árvore. A ideia era que as minhas fotos ficassem penduradas nos galhos das árvores. Levei várias velas com suportes variados, levei lampião para iluminar as árvores para que as pessoas conseguissem ver os nossos objetos e até mesmo a poética que a vela e o lampião trazem.



As velas têm valor simbólico: significam a "luz da fé”.

(...)A vela é o símbolo da luz e da consagração. Acompanha o cristão em sua caminhada por este mundo até chegar ao reino da luz.

(...)O próprio Jesus nos dá a missão de ser luz na cidade, no trabalho, na comunidade, na vida diária - "Vós sois a luz do mundo" (Mt 5,14). Ser luz é ser alegre, alerta, acordado, vigilante, vibrante, cheio de ardor, de fogo.

A função da luz é fazer enxergar. Por isso, ser luz é fazer o mundo enxergar a presença viva de Deus entre nós, num comportamento de amor, verdade, justiça e paz.



A vela então já veio não somente com o objetivo de iluminar, mas como um objeto que teve todo esse valor e significado na minha vida. Olhar para a vela, me fez lembrar toda a minha caminhada na igreja. Desde o batismo até a crisma. Junto com as velas eu trouxe um rosário que também tem esse vínculo com a igreja e com o significado da vela. Esse rosário eu ganhei no meu aniversário de 15 anos de meus pais. O que mais uma vez me traz memórias positivas.

Levei também coisas que minha mãe guardara desde a minha infância, como o meu primeiro cabelo cortado aos quatro anos. Que saudade dos meus cachinhos loiros... (rsrs). Até os meus primeiros dentinhos minha mãe guardou e eu levei-os num potinho...

Levei muitas fotos. Cada foto me faz lembrar de uma roupinha de quando eu era pequena, de um aniversário, de uma arte que eu tenha feito (rsrs), de um acontecimento. É com muito carinho que eu guardo cada uma delas, então achei interessante levar. Levei bonecas que fazem parte das minhas maiores e melhores lembranças. Eu adorava brincar de boneca, era como se o tempo não passasse. Era dentro de casa, na rua. Podia ser em qualquer lugar. Eu brinquei de boneca até meus 12 anos mais ou menos.

Uma das coisas que eu mais senti falta e admito que ainda sinto foi de quando eu fazia ginástica olímpica ainda na escola, eu adorava. Fazia com minhas antigas amigas de classe o que se tornava ainda mais especial. Da até vontade de chorar...foi uma época muito marcante. Sair da escola e sair da ginástica olímpica foi bem difícil para mim. Mas tenho guardado até hoje o meu colam, as minhas medalhas, embora que as medalhas nem faziam tanto significado, pois nunca me preocupei tanto em ganhar, mas sim pelo gosto que sempre tive pela modalidade. Esses foram os objetos que mais fizeram parte da minha infância.

Apesar da performance não ter sido feita na entrada do prédio onde eu achei que além de fazer parte da minha performance seria um local mais visível e mais registrado, foi importante lidar com a mudança de planos.

Venho agora falar de algumas das performances dos meus amigos que mais me marcaram.

A performance da Rafa tenho certeza que foi marcante para todos, apesar de eu não ter visto tudo pois estava preparando a minha performance. Todos comentaram e depois ela mesma falou sobre o assunto. Ela levou uma farda do pai dela que além de ter um significado na infância que lhe trouxe dor pois ele batia nela, trouxe também a saudade por ter anos que ela não vê ele. Isso ficou mais marcante quando alguém o perguntou e ela não aguentou e se desfez em lágrimas.

A Yule também passou por algo semelhante. Ela levou um quadro de quando era pequena nada mais. Porém eu ainda não tinha visto. Então perguntei a ela onde estavam os objetos dela e lembro claramente que ela respondeu: No ar! Aquilo me marcou muito pois ela disse que se ela trouxesse muitas coisas isso lhe faria lembrar da sua família que ela ver regularmente, mas que devido a faculdade moram um pouquinho longe. Isso também a fez chorar.

Pude perceber que muitos objetos ainda traziam dor e angustias para alguns. Por isso eu optei por não trazer objetos que me causaram dor. Lógico que todos nós passamos por dificuldades. Eu passei por muitas e ainda passo. Mas trouxe as que me trazem alegria, pois não são as ruins que me representam e sim as boas. Não quero lembrar das coisas ruins. E com certeza as boas são maiores e melhores que as ruins.

Os objetos nos fizeram lembrar de várias coisas boas e ruins. Mas a nossa maior e melhor recordação não está nos objetos e sim na nossa memória.

Se na juventude fiz loucuras,
E por alguma razão esqueci,
Vou na memória à procura,
Quero lembrar do que fiz,
Pois não lembro de nada,
Que não tenha me feito feliz.

MNEMÓSINE

   


A performance que fizemos dentro da universidade vila velha teve nome de memories pois foi em algo que remetesse a trazer uma memória de nossas infâncias, ou algo que trazia nossa passado para nos presente.
Através de uma conversa que tivemos dentro da sala de aula que foi surgindo a idéia da performance, o curioso é que sempre que vamos fazer algum trabalho performativo, é em algo que remete uma vivencia em que desperta uma curiosidade nas pessoas. Curiosidade essa de olhar e às vezes não entender.
Achei a performance bem interessante, pois não agredia aos que viam, era uma performance delicada que trazia algo de bom no seu bojo com ato performático. A idéia foi de trazer objetos que remetia nossa memória de uma forma que nos marcou quando criança ou mesmo adulto, mas que i idéia seria de algo do passado. Varias pessoas trouxeram bastante coisas,uns trouxeram bonecos, brinquedos, revistinhas objetos de valores sentimentais que trazem a tona toda a memória.

"É preciso começar a perder a memória, ainda que se trate de fragmentos desta, para perceber que é esta memória que faz toda a nossa vida. Uma vida sem memória não seria uma vida, assim como uma inteligência sem possibilidade de exprimir-se não seria uma inteligência. Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela, não somos nada”  BUÑUEL, Luis

Na citação a cima o autor fala sobre a memória, que sem ela não somos nada, e realmente tem muita coerência, assim como no texto citado ele diz que a memória é nossa coerência, pois sem ela, seriamos incoerentes, não teríamos consciência do que fazemos. Nos trás vários fragmentos de diversos momentos, é como uma maquina que processa tudo quando pedimos algo fantástico. Ao parar pra analisar de onde gera tudo esse sentimento, as ações, as razoes que faz acontecer.
Na performance, eu trouxe alguns de meus desenhos, que tenho guardado, que me trás muitas lembranças, de minha infância, que as vezes fala algumas coisas que só eu sei. Alguns com umas datas de 2006, 2005, 2007, um pouco antigos, me lembram de quando eu ficava horas concentrado na mesa ou em cima da cama desenhando e imaginando histórias, brincando com os desenhos. Às vezes me sentia um pouco solitário, ali naquele canto fazendo o que eu gostava de fazer.
Mas o que mais me trás a memória sobre esses momentos em que fazia os desenhos são os momentos da minha infância, ah esses que não voltam mais, e só o que me restam são as lembranças e as fotos. Voltando a mencionar sobre a citação a cima, em que o autor diz que sem a memória não existiria a vida, pois a memória passada são essas lembranças que guardamos e que as vezes dizemos só o que acontecia de bom, pois as coisas ruins ficam guardadas em lugares que só a gente conhece.

A memória é essa claridade fictícia das sobreposições que se anulam. O significado é essa espécie de mapa das interpretações que se cruzam como cicatrizes de sucessivas pancadas. Os nossos sentimentos. A intensidade do sentir é intolerável. Do sentir ao sentido do sentido ao significado: o que resta é impacto que substitui impacto - eis a invenção. HATHERLY, Ana. 

Na performance pude perceber esse sentido e o sentir das pessoas que ali estavam performando também, umas das que pude notar e sentir de dor, Fo a Rafaela, a performance dela foi trazer tudo que trazia o passado dela em exposição, trouxe varias coisas como , sapatilha de balé, e um objeto que mais fez sentir o sentimento de dor nela foi a farda de seu pai. E associando e fazendo uma relação com o que a autora acima citada diz que são fatos e interpretações que se cruzam com cicatrizes de sucessivas pancadas. Que faz gerar a dor da lembrança.
Outra coisa que pontuo foi de ver situações em que a performance fugia de ser uma performance,de algo que flui com natureza, uma crítica que faço é sobre a performance do Vinicius, foi muito interessante, em ter trago coisas e objetos que marcava a sua infância, a sua vida quando vivida em outro país, porem houve um momento em que ele se concentrou pra chorar, e aquele momento trouxe algo muito interpretado, pelo menos pra quem via, talvez fotograficamente não teve a informação que foi gerada, mas foi interessante. Outra performance que achei linda de ver foi a da Iasmin de colocar varias revistinhas em quadrinhos espalhadas sobre um tecido no chão em que ele ia contando as historias pra quem queria ouvir e se sentava ao seu lado, e o mais interessante é que tinha revistinha de quadrinhos lá com a data de 1995, achei fantástico e genial, pois alem de trazer aquela memória, eram mostradas, onde quem ver se sente até emocionado com aquela data.

A idéia da performance foi muito rica e conseguiu atingir seus objetivos como performance, ao menos pra mim, que pude perceber a importância de cada objeto ali mostrado.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Performance "MORFEU"

MORFEU


Relatar qualquer experiência, quando se trata de performance, com a visão do artista que a fez sobre a reação do público que a presenciou, é possível sempre se identificar algumas reações das quais o artista esta familiarizado. O estranhamento como objetivo da performance não vem em sua totalidade na maioria das vezes por conta dos  que não se “deixam” afetar por aquele deslocamento por mais que o intuito uma vez determinado seja de afetar diretamente esse sujeito, em suposição. Outro lugar a ser destrinchado em poucas palavras nessa crítica é o de necessidade de sentido em uma performance onde é agregado outros pontos e possivelmente menos aquele que veio como principal.
A performance “Morfeu” realizada na instituição Universidade Vila Velha teve a intenção de deslocar do mais intimo ao mais sombrio da realidade sonífera de todo a massa, não só daqueles que iriam presenciar, resumidos em nove performances espalhadas pelo espaço de entrada da universidade com colchões, lençóis e pijamas tudo para trazer essa realidade e que consequentemente acaba adquirindo uma visão lúdica daquele recorte da vida.
E para conseguir esse recorte de vida, gerando a veracidade entramos no ponto da vivência da ação e da interpretação. Há uma tênue linha entre esses dois aspectos. Viver a experiência da performance gera um efeito indiscutível que a interpretação não alcança, por você se entregar na ação como um “boneco de lama” e ir se moldando, adequando. Absorvendo o inesperado da vivência. Mas não podemos rejeitar a interpretação por completo com o receio de que o espectador perceba e não interaja com ação por se tratar de uma ficção, mas evitar ao máximo essa “preparação” antecipada da performance.
“Na vida cotidiana, a verdade é o que existe realmente, o que se conhece. Enquanto em cena, ela é constituída de coisas que não existem realmente, mas que poderiam ocorrer.”¹ Diz Stanislavski sobre a naturalidade cênica, mas que se encaixa de certa forma na situação que a “Morfeu” propõe.
A principio o objetivo em si era expor a realidade do que acontece no momento que estamos mergulhados no nosso mais profundo intimo. Várias ações que acontecem foram feitas e a opinião sobre do que se tratava aquela ação estava livre para o entendimento do público que a assistia. Deixar livre a interpretação para o espectador tem um caráter muito enriquecedor, podem surgir sentidos que nem foram cogitados durante a elaboração, o processo da mesma. Quando um sentido maior é estabelecido e que há o esforço para que o mesmo seja entendido pelo público, acaba desfavorecendo o próprio objetivo.
O sujeito acaba por realizar a sua própria leitura daquela cena ou até mesmo fazendo nenhuma, por não fazer sentido para ele e isso que acaba gerando uma confusão de sentidos, o que também é valido em uma performance.
A expectativa sobre os comentários dessa performance com um sentido maior, pode ser frustrante por conta dessa confusão de leitura. A ação pode ser muito elaborada e com o sentido claro para o artista, mas quanto para público passou despercebido, o erro de manter a performance sobre a única visão do artista e esquecer de que a performance é também feita para o público compromete o objetivo e sua intenção, a de provocar.
“Chocado com a Universidade Vila Velha, uns alunos (provavelmente de artes cênicas) encheram o prédio de Direito de colchão (com um monte de gente deitada, plantando bananeira, pedindo silêncio, pedindo pra dormir junto etc.) e colocaram um doido fazendo simulação de atos obscenos na escadaria principal junto com uma menina jogando sangue fictício pelo corpo dela e dele – A sentir-se confuso” (A.N)
As vezes o sentido é ser sem sentido. A provocação da performance é alcançada mais não a que o artista provavelmente desejou. O deslocamento dessa ultima cena citada no comentário pode não ter saído do além que faz sentido para o artista.
A reação do público em resposta a esse estranhamento carregado de vários olhares críticos ou não, que compõe essa recepção subjetiva do público. Desse olhar externo que se é sujeito receber, são daqueles que se vêem em um verdadeiro estado de possível semelhança, curiosidade, questionamento, aversão. O público interage direta ou indiretamente com aquela situação que é fictícia, mas que contém uma ação da realidade que pode requerer uma intervenção maior por parte dele. Mas também há aqueles que se comportam indiferente ao diferente que está ali, próximo de seu cotidiano, da sua realidade.
O sujeito ser afetado pela performance traz esse comportamento, mas  há também aquela parte do público que não se deixa afetar, quase como um tipo de negação a tudo aquilo que interfere no seu cotidiano. O comportamento dos “não afetados” á aquele deslocamento, talvez por não se permitirem gerar associação com aquela situação por mais semelhante que possa ser ao indivíduo ou simplesmente por querer ser indiferente, nesse caso, ao intimo exposto em um local incomum.
Os “não afetados” define-se como aquele público fechado que não aceita a provocação nem o deslocamento que aquela performance traz embutida nas suas ações. De certa forma é um estranhamento que vem como resposta e não se deve descartar. Mas finalizo com uma justificativa a esse comportamento não só referente a performance mas também na vida: Nós não estamos acostumados a interação.


Happening “Tirésias”

Happening “Tirésias”
Essa experiência foi uma das mais significativas.
Fizemos esse happening juntamente com a turma de fotografia da universidade.
O local foi o estúdio de TV da universidade. Preparamos o local com alguns estímulos, pipoca, barbante molhado e alguns outros objetos como as cadeiras e poltronas. A interação iria acontecer no escuro durante 40 á 50 minutos.
Arrumamos o espaço e depois saímos para entrar novamente no happening propriamente dito. Perdendo a noção visual, comecei a descer a escada sentada, com uma aflição de procurar os degraus com as pernas e essa busca parece que se tornou infinita no “último degrau”, mesmo esticando a perna ao máximo com o medo de cair não conseguia achar esse último degrau e o alívio só veio quando esbarro o meu pé em um pedaço de tecido e percebo que já estava no chão. Conseguia imaginar a minha cara de medo subitamente mudando para uma cara feliz por causa do alivio, fiquei rindo de mim mesma durante um bom tempo.
Depois, uma vez de pé, procurei algo a que me apoiar. A sensação se você ficar sozinha no escuro sem nenhum apoio e apenas escutando vozes e a movimentação dos objetos pelo espaço é angustiante. Um mero toque no braço acho que pelo instinto, faz você segurar o que for forçando o a ficar ali perto de você. Fiz isso várias vezes antes de realmente me tranqüilizar com aquela situação.
Experimentamos várias sensações. Cantamos, produzimos sons, ficamos em silêncio, gritos. Cada um foi absorvido com uma intensidade maior e diferente a cada mudança.
Até certo momento do happening eu estava interagindo com o local, até que alguém segura o meu pé bruscamente e como um reflexo que eu tenho logo tirei por que isso me vem como um instinto de perigo. Gritei claro e fiquei procurando uma sombra ou o que fosse que se aproximasse de mim, abaixada com as mãos mexendo no ar na esperança de esbarrar (ou não) em quem ou o que pegou no meu pé. Um calafrio foi me acontecendo na medida em que imaginava esse ser atrás de mim e foi ai que eu fui surpreendida por mais uma vez pegando o meu pé desta vez seguidas vezes. Comecei a suar frio e entre um pulo e outro para sair de quem me torturava, consegui agarrar o braço e instantaneamente comecei a bater nesse alguém, a fim de me proteger. Bati muito, meu braço ficou formigando e quando dei um passo atrás esbarrei em uma cadeira e lá sentei e permaneci durante um tempo, pra me acalmar. Não sei o porque tenho essa aflição tão grande por alguma coisa, qualquer coisa encostar no meu pé. Só sei que esse pavor aumentou mil vezes no happening.
Depois de um certo momento percebi que a vista começava a se acostumar com a escuridão e por isso conseguia ver nitidamente o espaço todo, não possuía mais aquela cautela ao andar pelo espaço. Não somente a visão, mas como a percepção pela audição, eu conseguia identificar a proximidade de uma pessoa conhecida ou pela respiração, cheiro ou toque. Ou os três juntos. E ao final dos minutos, antes de entrarmos programamos despertadores para o mesmo horário o que se tornou uma sinfonia de toques. Precisei ficar em silêncio para absorver aquele momento.

Quando acendemos as luzes, ouvimos comentários e sensações que tiveram nessa experiência. Optei por ficar em silêncio, achei que precisava absorver mais todas aquelas sensações, apesar de serem semelhantes as que estavam sendo expostas ali.

Performance “Medusa”

Performance “Medusa”
A performance foi sugerida pelo aluno Vinicius em uma de nossas reuniões de planejamento da matéria de Direção I.
A performance aconteceu na faixa de pedestre em frente ao shopping, ali seria o local onde poderia acontecer de tudo e que a principio foi planejado uma corrida de saco. Enquanto o sinal estava aberto, ficávamos parados como pedestres comuns e o sinal fechando, nós retirávamos da bolsa o saco, colocávamos e atravessávamos pulando em uma verdadeira corrida de saco até o outro lado, que no final acontecia até uma comemoração. Fazendo uma verdadeira brincadeira de criança com os adultos.
Durante essa performance sentimos a obrigação de uma constante mudança por vários fatores. Um dos principais foi o fato de a corrida de saco não conseguir se estender é que realizar o circuito de ida e volta da corrida estava se tornando cansativo então a solução foi continuar nesse resgate pelas brincadeiras infantis e não somente a corrida de saco. Fizemos a brincadeira da cobra- cega, da Estátua, do “pula sapo”, dança e etc. todas essas brincadeiras foram realizadas enquanto atravessávamos a faixa.
Nessa performance da faixa não consegui perceber uma reação maior do público pelo fato de estarem dentro dos veículos e também pela interação entre os integrantes da ação. Em certos momentos não me lembrava de que aquilo se tratava da performance, quando surgiu a nostalgia em mim só pensava em fazer as brincadeiras e conforme isso ia acontecendo, percebia que isso também ocorria com os outros integrantes. Ali naquele momento resgatamos a nossa criança que foi sendo trancada conforme crescíamos. Por não saber os comentários e pensamentos que se passavam do nosso público, me pergunto se mesmo eles também conseguiram resgatar essa infantilidade só de olhar a ação que estava ali acontecendo. Com certeza essa performance trouxe essa mesma sensação de nostalgia que aconteceu em mim, no público que estava no carro que estavam somente assistindo.
No final da performance na faixa, decidimos fazer outra mudança. Fazer a brincadeira do “VIVO- MORTO” no ponto de ônibus próximo dali. O ponto estava cheio e vimos uma oportunidade de obter uma nova experiência da mesma performance. Chegamos no ponto e nos misturamos com o público fingindo esperar o ônibus. Eu comecei a dar o comando da brincadeira e na hora, quem estava no meio da performance se afastou. Consegui ouvir um comentário de uma moça que estava logo atrás de mim “Meu Deus, vou sair daqui desse meio.”
Nesse momento eu consegui captar uma reação mais concreta. Ali consegui perceber o afastamento bruto que as pessoas tendem a fazer com a sua “infantilidade”. Uma senhora comentou “não tenho mais idade para isso (risos.)”. me passei a perguntar o porque, se era pelo fato de não conseguir fazer a brincadeira mesmo querendo fazer por conta das limitações físicas que ela possuía ou se ela queria fazer porém o “papel” de adulto não permite esse tipo de comportamento?

Acho que o objetivo de se resgatar essa criança interior foi mais eficaz em nós performers, que no público em si. Pelo menos considerando a minha experiência.

Performance “Sansão”

Performance “Sansão”
A performance Sansão tratava-se de uma ação que aproxima-se o público do performer com uma interação direta entre eles.
Anderson o performer, ficou sentado em um pequeno banco, atrás dele foi estendida uma faixa grande com a frase “CORTE O MEU CABELO” e pendurada ao lado estava à tesoura que era segurada pelo performer. Qualquer um poderia ficar a vontade e cortar o cabelo do performer sem que ele esboçasse reação nenhuma. O local escolhido para essa performance foi a praça de Itaparica em Vila Velha.
O local não tinha público, exceto o que estava sentado nas barraquinhas de  comida que funcionavam por ali. A escolha do lugar no qual Anderson iria ficar foi outro desafio, optamos por colocá- lo de frente a um carrinho, onde tinha mias “público”. Depois de tudo organizado, a performance começou.
Sabemos que até o público encarar aquele estranhamento exigi uma paciência, um certo cuidado pelo fato de que a interação com o público era direta, mesmo com uma frase bem direta na faixa explicando o que era pra ser feito, a primeira pergunta que surge na cabeça independente da situação é “porque?”. Conversando com algumas pessoas no local, elas se perguntavam isso e conforme viam a pessoa cortando o cabelo do performer, percebi que sem um motivo aparente elas encaravam aquilo como uma forma de mutilação, colocando o cabelo como uma parte importante do ser humano. Comentários como “Pra que? É doação pra igreja? Protesto contra alguma coisa?” era de se perceber que sem um motivo concreto, aparente aquilo se tornava para quem assistia um ato de loucura o que é normal quando se trata de uma trabalho de performance.
Em uma conversa com uma pessoa que estava mais afastada do local da performance, ela comentou que “o homem só está fazendo isso porque é estranho, eu vi ele aqui e percebi, porque estava usando uma saia comprida, tinha um jeito estranho.” Depois desse comentário percebi que com estranho ela queria dizer gay, a resposta para essa pessoa que estava vendo aquela ação era de que ele só estava fazendo isso por conta da orientação sexual dele. Como a performance proporciona a liberdade para se procurar as respostas que cada individuo acha certa para si e como o comportamento de um sujeito pode influenciar nessa resposta. Passei a me questionar se no lugar do Anderson estivesse uma mulher, um tatuado, uma criança, procurando uma possível resposta que essa mesma mulher acharia para essa mesma ação.

Um dos pontos que não me agradou foi a questão da paciência que eu citei acima. Você incentivar o público a ir cortar o cabelo dizendo do que se tratava aquela ação, quebra o estranhamento que é o objetivo maior de uma performance. Tira o direito de o público ter esse estranhamento e de analisar a situação, entende- La do seu próprio jeito. A resposta de uma performance é sempre uma surpresa e isso não deve ser mudado na minha opinião. As vezes devemos encarar o improviso e estimular o público, vejo a conversa como uma ótima chave para isso, porém uma conversa comum se colocando como público e não informando o porque e do que se tratava aquela performance. Nesse dia o resultado da performance poderia ter sido ninguém ido cortar o cabelo do Anderson e que seria válido também. E se isso ocorre- se, posteriormente planejaríamos melhor a performance para obter o resultado que queríamos com ela, não precisando da busca pela resposta imediata como foi.