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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

PERFORMANCE “MNEMONESI"


Essa performance foi realizada pelo coletivo como uma das apresentações durante a IV abertura de processos cênicos do curso de Artes Cênicas.
A performance se trata de uma exposição das memórias dos próprios performers, aberta ao público em um local aberto dentro da universidade vila velha. Em uma certa altura da exposição os próprios performers iriam interagir com as suas próprias memórias.
A minha exposição se deu como um grande varal. Os objetos que eu trouxe foram muitos segnificativos: a farda do meu pai, o cinto com que apanhaei do meu pai durante minha infância, todas as minhas sapatilhas de balé, minha roupa quando eu era criança junto com meus sapatinhos e minha manta, meus primeiros dentes de leite, minhas medalhas de judô e minhas faixas de judô.
Logo quando comecei a montar minha exposição, senti a necessidade súbita de não querer interagir. De forma alguma queria manter uma interação com o público sobre minha historia e daqueles objetos que estavam pendurados. Então permaneci ao lado da exposição mas sem querer ter uma conexão mais forte com o público.
Com a exposição correndo para o fim, recebi orientações que a partir do momento em que eu me sentisse a vontade poderia começar a desmontar a exposição. E foi nesse processo que o público se aproximou e começou a perguntar sobre a história dos objetos. E a relação que tanto queria evitar acabou acontecendo. A emoção tomou conta quando as perguntas foram para a farda do meu pai, várias imagens me vieram a cabeça, a voz dele se repetia na minha cabeça chamando meu nome de várias formas e meus apelidos que escutava durante a infância. O cheiro da farda apesar de estar ali a minha frente ficou mais forte. Tudo ficou mais potente, e acabei revelando coisas ate demais. Mas não é algo que eu me arrependa, percebi coisa, descobri coisas e isso foi enriquecedor.
Durante a exposição vi que um de meus amigos estava sentado ao lado da minha exposição e estava profundamente emocionada, mais tarde descobri que ele estava emocionado com a minha história e do meu pai. Não consegui perceber como a minha exposição atingiu muito mais ele do que a mim naquele momento.
Como as memórias de terceiros podem nos atingir profundamente, mesmo não tendo relação alguma com a pessoa que foi “afetada”.


PERFORMANCE “ vende-se aqui...


Essa performance foi realizada pela Ana Paula dentro o processo de realização de performances individuais.
A performer estaria atrás de uma mesa, como vendedores ambulantes, camelos de rua e nessa mesa estaria os produtos a serem vendidos, produtos incomuns e maioria sendo descartável para a sociedade: pilhas sem bateria, fralda suja, pelos pubianos, isqueiro sem gás e até papel higiênico sujo de fezes. Havia de tudo nessa mesa e o intuito era que esses objetos descartáveis fossem vendidos para o público.
O local escolhido para a performance foi a própria universidade, no horário da saída onde há um fluxo grande de alunos.
No horário marcado fomos acompanha a performance. Ana começou a montar a sua pequena banca, colocando os objetos por cima da mesa. Terminado isso ela começou a chamar a atenção dos alunos para os seus produtos como uma vendedora que se prese. Alguns começaram a se aproximar da mesa por curiosidade. Ana estava preparada, ofereceu uma tabela de seus produtos onde continha todos os produtos e seus respectivos preços. Observando de fora, conseguia perceber a reação das pessoas ao saber quais os produtos que estavam ali em cima. Umas sorriam, e havia aquele jogo de se perceber o pensamento do publico e a pergunta que todos faziam era “isso é sério?” sendo para a Ana ou somente no pensamento.

Quando começou a diminuir o movimento, me aproximei como público e durante a conversa com uma das pessoas que estavam ali na mesa ela comentou “o que é isso que ela vendendo? Ah, é tudo descartável que ela usou. Tadinha, a situação não boa pra ninguém.” Se referindo a crise econômica. Ai percebi um sentido que foi atribuído durante a performance que é uma critica ao capitalismo, onde tudo pode ser comercializado, sem exceção quase.

performance "ESPERANDO GODOT"


Essa performance surgiu em mais uma reunião para a definição da próxima que seria realizada.
Partindo de uma idéia inicial de colocar uma mesa de jantar no meio de uma rua, a adaptação veio com a necessidade de buscar uma interação direta e maior com o público. Então partiu de mim a idéia de ainda fazer um jantar em um local incomum, porém desta vez com uma única pessoa sentada em uma mesa toda preparada para um jantar a dois, sendo que o performer só poderia “começar” o jantar quando outra pessoa, no caso o público se sentasse a mesa junto para o jantar finalmente a dois.
Escolhi essa performance por ter como a referência a performance de Marina Abramovic, na sua exposição onde várias pessoas se sentam na sua frente e a performer permanece imóvel, sem qualquer expressão em seu rosto durante horas dos meses da exposição.
O local a ser realizado a performance foi novamente um desafio, primeiramente iria ser realizado no terminal, ma como temíamos fomos proibidos de realizar dentro do local, então como alternativa fomos novamente para a praça de Vila velha, no centro. Mais uma vez encontramos a praça totalmente deserta, exceto pela presença de alunos de uma escola que fica próxima a praça.
Paralela a minha performance iriam ser realizadas outras duas que por motivos da mudança de local não foi possível realizar uma delas e a outra o performer que iria realizar optou por não querer fazer nesse dia.
Após analisar bem o local e depois de discutir as adaptações escolhemos um ponto de ônibus em frente a escola que fica do lado da praça, já percebendo que o movimento ali se dava pelo horário de saída dos alunos e que a maioria se dirigia para o ponto de ônibus. Decidido isso, começamos a montar a mesa de jantar, minutos depois eu me dirigi a mesa sentando e dando inicio a performance.
Logo no inicio senti o estranhamento, as pessoas que estavam sentadas no ponto de ônibus não olhavam para mim, ficavam olhando para o celular, conversando de costas para a mesa que estava ali presente na frente deles e olhavam para a direção de onde os ônibus vinham, me ignorando totalmente. Percebendo isso, com a orientação da Rejane, comecei a comer o jantar e a chamar a pessoa convidando a diretamente a se sentar comigo, quase implorando para ter a compania dela naquele jantar.
Duas pessoa se sentaram na mesa. Conversei com elas de variados assuntos, a comida que estava sendo servida, faculdade, passado, histórias, ex namorados, era uma troca de histórias, no entanto percebi que havia montado um personagem, uma mulher elegante porém carente, educada e rica. As pessoas me contavam suas histórias e eu como personagem do performer contava as “minhas histórias”, inventadas na hora. Pelo menos na primeira pessoa que se sentou, contei fragmentos verdadeiros da minha história performer, porem na segunda fui levada a inventar fatos a partir do momento em que eu concordava com ela em alguns fatores. Depois pensando sobre esse fato, conseguir enxergar que a partir do momento em que eu concordava com a pessoa era um tipo de ferramenta para que a pessoa quisesse ficar ali me fazendo compania independente da comida, que era o maior atrativo para sem sentarem. Era um dispositivo que funcionava para que o assunto que surgisse na mesa não morresse, uma tentativa de manter o assunto e a minha compania tão prazerosos quanto a delas para mim, uma vez que eu implorei para ambas s e sentarem, quase um desespero.
Foi uma experiência parecida com o que o Anderson passou na performance “Sansão” onde ele era o espectador da própria performance.

Tenho interesse em colocar em meu repertório de performance a serem adaptadas e evoluídas com um pouco mais de calma futuramente.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

SANSÃO

SANSÃO


Um ato performativo do curso de Artes Cênicas de Vila Velha no Espírito Santo causa um enorme estranhamento ao ser exibido em público. Anderson, um dos alunos do 4º período, se coloca no meio da Praça em Coqueiral de Itaparica, sentado numa cadeira com uma vestimenta bem esvoaçante. Acima dele uma faixa enorme amarrada sobre duas árvores escrito: “CORTE O MEU CABELO”, com uma tesoura pendurada por um barbante. Essa era a cena que qualquer um encontraria a mais ou menos 22 h em plena quarta-feira. Admirei-o pela coragem, afinal depois de todos cortarem o cabelo dele todo torto ele teria que raspar a cabeça e ele aceitou naturalmente sem reclamar.

É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente.” (BEAUVOIR, S.)

Por ser muito tarde e um dia de semana, já era de se esperar que não houvesse muito movimento, mas como um dia de trabalho, haviam trabalhadores na praça com suas barracas vendendo cachorro quente, pastel, hambúrguer, doces etc. Foi esse o nosso público, assim como as pessoas que estavam lanchando nas barracas.

Com a cena já instalada, demorou-se um tempo para que alguém percebesse aquilo como um ato performativo, isso foi bom pois olharam como algo estranho e esse era um de nossos objetivos, causar estranhamento e curiosidade nas pessoas. Muitos pararam e acharam obsceno uma cena daquela no meio de uma pracinha. Uns riram e acharam o máximo, outros não gostaram e faziam gestos negativos com a cabeça. É muito bom quando um mesmo ato é absorvido de diversas formas em diferentes pessoas. Algumas pessoas que passavam de bicicleta, pararam para observar a cena e achavam maluquice.

O tempo foi passando e ninguém teve a coragem de se arriscar para cortar o cabelo, uns deveriam pensar: Será que é uma armadilha, uma pegadinha?! Ou pelo simples fato de olharem uns para os outros e ninguém ir. Como estávamos com o tempo curto, foi necessário a condução através da voz da direção, nossa professora e diretora Rejane instigou-os a chegarem perto e realmente cortassem o cabelo do Anderson. Não sei até que ponto isso foi bom. Acho que a performance não deve ser contada nem instigada. As pessoas deveriam ter o tempo que for necessário para que entendessem ou não. Faz parte da interpretação do público, mas devido ao tempo, tivemos que instigar para provocar. Por outro lado foi bom pois estimulou os outros.


Depois da insistência um menino se aproximou e cortou. Ele se sentiu tão à vontade e achou tanta graça que continuou cortando e acho que queria cortar o cabelo todo. As pessoas então curiosas e surpresas pela coragem do menino foram se aproximando, principalmente as crianças. Foram formando um círculo e todos começaram a ficar ansiosos e inquietos. O menino que estava cortando o cabelo do Anderson estava tão entretido que não queria sair dali. Foi então necessário mais uma vez a voz da direção para que ele deixasse os outros cortarem também. Assim outras pessoas foram se sentido a vontade e cortando o cabela dele. No final já tinha aglomerado uma porção de gente e mesmo com as desavenças e as mudanças de plano, acabou dando certo. Foi interessante o meu olhar de fora. 

TIRÉSIAS

Performance de Tirésias
Como estamos estudando as variadas formas de performances chegou a vez do happening, que é uma performance onde não tem espectador a participação do público é transformada em espetáculo em um local onde os participantes se encontram já sabendo o que irá acontecer.
Nosso happening foi na universidade em um estúdio de gravação, a proposta inicial era nossa turma junto com outra turma de algum curso dentro do estúdio com as luzes completamente apagadas, e com alguns estímulos que seriam tragos por nós mesmos espalhados pelo ambiente.  Como tínhamos que trazer alguns estímulos para o local e ele estaria completamente escuro, pensei então em algo sonoro e levei um chocalho, onde poderia me comunicar sem falar nada.
Quando começamos foi bem diferente do que tinha imaginado achei que não teria quase nenhum barulho e os participantes iriam investigar o local no escuro, mas foi totalmente ao contrário: eles cantavam, assobiavam, conversavam, tinha um tal de perguntar quem era que chegava me dar agonia. Não queria que as pessoas descobrissem quem eu era, mesmo porque eu também não sabia quem elas eram, e somente pela voz e o toque dava para descobrir.
No espaço havia barbantes, cadeiras, pipocas e alguns panos bem grande jogados no chão. Os estímulos propostos foram poucos, poderíamos ter pensado em algo como coisas quentes ou frias, texturas entre outros objetos.
Hélio Oitica tem uma forma deferente de criar encontros performativos ele cria ambientes e as pessoas interagem como intendem e bem quiserem.
Neste espaço, cada proposição coloca a seu modo uma questão vital que perpassa sua produção: a superação de uma arte de cunho geométrico-representacional para a proposição de experiências artísticas vivenciais centradas no corpo e na “ação comportamental como uma força criativa” (Oiticica, 1969: 1).
Durante todo o tempo da performance meu foco era perturbar a todos de alguma forma, eu puxava as pernas de quem estava no chão e saia arrastando a pessoa, saia arrastando o pano pelas pessoas buscando que as incomodassem, no entanto enquanto estava em meu trajeto alguém que na hora eu não tinha ideia de quem era começou a puxar meu pano então entramos em uma “luta corporal” onde o que importava era o pano. E essa foi uma das horas mais marcantes da performance para mim, onde me vi embolada no pano e em alguém que nem sabia se conhecia ou não.
Estava então me cansando resolvi pegar uma pena que estava em meu cabelo e provocar as pessoas, mas como estava escuro não sabia para onde direciona-la minha estratégia foi então ir nas pessoas que estavam falando daí sabia onde elas estavam.
Impressionante é que depois de algum tempo no completo breu nossos olhos se adaptam e acabam tendo a percepção de onde estão as coisas.
Legal seria se tivéssemos colocado uma câmera que grava no escuro, mas não tivéssemos avisado a ninguem, dai depois iriamos ver o que cada um fez. Creio que iriamos nos surpreender!

O branco com branco é um resultado de invenção, pelo qual todo mundo tem que passar; não digo que todos têm que pintar quadro branco com branco, mas todos têm de passar por um estado de espírito que eu chamo branco com branco, um estado em que sejam negados todo o mundo da arte passada, todas as premissas passadas e você entra no estado de invenção. Você, para entrar no estado de invenção tem que passar pelo branco com branco, como na música você tem que passar pelo rock. Porque o rock, na verdade, é coisa irreversível: ou você entrou nele ou não entrou. (Entrevista de Hélio Oiticica a Ivan Cardoso, “ A arte penetrável de Ho”, Folha de São Paulo, 16/11/1985)

MEDUSA

Performance da Medusa
 Quando a performance da Medusa foi proposta por nós em sala de aula, pensamos em uma performance do non sense, onde todos nos vestidos da mesma forma de nosso cotidiano iriamos para o sinal em frente o shopping Vila velha, e quando o sinal fecha-se tiraríamos de nossos bolsos ou bolsas sacos e atravessaríamos a faixa de pedestres, como se fosse uma corrida de saco. Essa era a proposta original, mas quando se faz uma performance você esta apto a “tudo”, o improviso ocorre de forma espontânea e imediata, nossa proposta original estava nos cansando e o tempo que o sinal ficava aberto era muito longo, por isso dava para ir e voltar varias vezes, foi então que algum de nos deu a ideia de relembramos jogos de infância. E no meio da faixa foi o que aconteceu desde cabra cega, pic pega e outras brincadeiras e até mesmo dancinhas foram apresentados a nosso público que eram desde pessoas dentro dos coletivos a motoristas e pedestres que passavam no momento no local.
Gosto do mal feito, do cinismo, do improviso... Gosto do que constrange. Porque isso derruba as máscaras e revela a alma.( Leleli Santos)        
A reação do público foi magnifica, alguns se estressaram, outros buzinavam e tinha até pessoas que conheciam performers que estavam conosco.
A performance estava acontecendo e estava sendo um sucesso, tocava a todos de uma forma ou de outra.
Quando estávamos quase acabando surgiu a ideia de irmos para o ponto de ônibus, onde nossa performance terminou com nós no meio dos passageiros e ao som da voz de Rafaela fazíamos a brincadeira do morto e vivo. O povo pirou nos primeiros momentos e não ficamos lá por muito tempo, pois com o passar do tempo as pessoas já se acostumam e não cria um olhar de distanciamento que tanto queremos. Daí se formou o nome de nossa performance que é Medusa, em alguns momentos Rafaela dizia morto e não falava vivo com resultados ficávamos agachados no chão esperando o próximo comando ao mesmo acontecia quando ela dizia vivo ficávamos imóveis e o efeito era contrário.
Trabalhar performance em coletivo é um apoio como se não estivesse sozinho pois todos estão ali para o que der e vier.

Cada homem age por si, segundo um plano próprio, mas o resultado é uma ação social, em que outro plano, externo a ele, se realiza; e com os fios crus, finos e desfeitos da vida de cada um, se tece a teia de pedra da história.(R. P. Pogodin)

SANSÃO

Performance sansão
Quando desenvolvemos e pensamos na Performance Sansão, não achei que teria os resultados que obtivemos! Me surpreendi!
Todos nós vamos a salões de beleza corta os cabelos, ou até mesmo damos nossas próprias tesouradas e isso já se tornou uma situação de nosso cotidiano, mas e quando essa cena aparece em um local um pouco de deferente de nossas casas ou salões?
Causa o distanciamento e estranhamento no público, que pode ter múltiplas reações desde intender pelo lado da arte, ridicularizar ou ter qualquer um tipo de reação. No que é exatamente o que seria a intensão de um performer é tocar o seu público de qualquer forma, fazer com que eles se indaguem, comentem passem a situação vivida adiante, que tenha mais desdobramentos. Esse efeito que causa no público é chamado por Brecht de efeito v.
 Bertolt Brecht lembra que o v-effekt pode ser encontrado nas tragédias gregas, no teatro chinês e mesmo no dadaísmo, onde o admirador da obra de arte pode se deparar com coisas e situações estranhas, não habituais.
A performance era Anderson sentado em uma praça bem movimentada de vila velha com um pano branco sobre sua roupa que consistia em uma calça de cor cinza saruel e uma camisa de cor ofuscante, pendurado em um barbante preso na arvore havia uma tesoura que o performer segurava em suas mãos, um pouco acima dele tinha uma faixa escrita com letras bem grandes a seguinte frase: Corte meu Cabelo.
Anderson ficava parado o tempo todo, e tinha um olhar meio que vazio. Aquela cena tocava a todos que passavam, no entanto elas não se propunham a cota-lhe o cabelo, o apoio pensou então que elas precisavam de algum estimulo, para acontecer o que todos queriam ver, então um aluno de nosso curso foi e cortou um pouco do cabelo dele e em seguida outros.
O púbico observava e parecia não acreditar no que estava vendo.
O estranhamento apareceu e non sense também.
Algumas pessoas participaram e eu me surpreendi muito não achei que o público cortaria mesmo seu cabelo!
E com resultado da performance voltamos com Anderson meio que careca!

A lei seca da arte é esta: 'Ne quid nimis', nada além do necessário. Tudo o que é supérfluo, tudo aquilo que podemos suprimir sem alterar a essência é contrário à existência da beleza.(Ortega y Gasset, José)

Performance Morfeu

Performance Morfeu
Nas aulas anteriores obtivemos como teoria o que seria uma performance e juntamente várias ideias do que fazer, e uma delas foi espalharmos colchões por toda universidade na hora da saída e cada ator propor uma ação para si, em dupla ou individual, a proposta foi livre.
Com colchões, travesseiros e pijamas em mãos hoje foi o dia de fazer a performance que demos o nome de Morfeu (Deus do sono). Estava bem ansiosa pois nunca tinha feito esse tipo de trabalho, minha performance consistia em com meu filho nos braços, niná-lo e cantar canções para ele dormir, mas durante a prática achei que só isso não estava calçando tanto impacto nos espectadores, mesmo porque Kurt já estava dormindo, então peguei ele em meus braços e a cada grupo de pessoas que passava eu os olhava e com uma das mãos, levava a minha boca e com o dedo indicador fazia o gesto de silencio, junto com um sussurro e espontaneamente dizia ao público frases como: Façam silencio, estamos querendo dormir, falem baixo o bebe já dormiu.
Para minha surpresa as reações do público foram diversas: “Sua doida ele esta com frio,É um boneco?, Mas que isso esse pessoal é doido!, Que bonito é de verdade?”
O estranhamento aconteceu e o que mas me motivava era a reação do público em não saber o por que aquilo estava acontecendo.
Da onde estava não conseguia ver as outras performances apenas Ismael, mas cada um da sala propunha uma cena que remetia a algo como estupro, coisas de fazer antes de dormir, insônia, brigas, pesadelos.
A intenção do performer é que a performance não apenas aconteça mais que traga algum desdobramento, e foi o que aconteceu os comentários no prédio de direito que foi o local que escolhemos, foram até o outro dia e se desdobraram na rede também.
"A arte não consiste mais em um objeto para você olhar, achar bonito, mas para uma preparação para a vida" (Lygia Clark)
A arte é algo para se pensar, se indagar e tentar descobrir o real sentido daquilo, mesmo que a performance não precisa ter sentido algum.

            "Através da outra pessoa, o indivíduo pode perceber o seu próprio sentido, conhecer-se a si mesmo" (Lygia Clark)

TIRÉSIAS

Como eu não participei deste Happening e não foi algo experimentado por mim, vou falar um pouco do Happening.

Confunde-se muito o Happening com a Performance. Na maioria das vezes, o Happening  envolve a participação direta ou indireta do público espectador, e geralmente a participação do público é transformada em espetáculo.

O happening significa "acontecimento". É uma forma de expressão das artes visuais que, de certa maneira, apresenta características das artes cênicas. Há uma relação entre a arte e a vida. Pode ser entendido também como um espetáculo dramático inusitado, como uma variedade de acontecimentos sem continuidade.

Allan Kaprow, além de pintor foi um dos primeiros a descobrir os conceitos da arte de performances e happenings. Ele gostava de estudar e observar os hábitos e comportamentos das pessoas em seu cotidiano. Ele gostava de estudar o corpo, o espaço e os elementos ao seu redor.

Um grande contribuinte para o Surgimento do Happening também, foi Jackson Pollock com suas pinturas primitivas. Demostrava em suas obras a batalha entre o artista e o objeto a ser criado. Todo esse ato trouxe a possibilidade performática.

Um teórico muito estudado nas Artes Cênicas e que fala um pouco de Happening é Renato Cohen, ele fala do Teatro Livre que está associado ao Happening, ele quer defender a liberdade, pois na década de 60 foi um período contra cultura. Para Cohen,
O Happening é uma expressão que se constrói a partir da associação caótica de elementos que surgem casualmente durante o acontecimento.” Ele ainda fala que o que nós chamamos de arte de acontecimento ou arte do espontâneo é na verdade “live art”.

Harold Rosenberg, um crítico, fala do happening como um protesto e fala sobre a presença tríade: a figura do atuante (artista), do público (audiência) e do texto (elementos da convenção).

Essa tríade resultou em uma forma de expressão chamada Happening cuja execução solicita a interação entre os participantes e o ambiente que eles ocupam, e exige, inevitavelmente, a presença do acaso, já que as ações dos participantes ou as relações não podem ser controladas. A grande importância do acaso dentro de um Happening faz com que ele se caracterize, de certo modo, como uma expressão teatral despreocupada com os resultados estéticos.” (CUNHA, C, Paraná)


Tudo pode acontecer num ato performativo, pois não sabemos e não temos controle do que acontece, por isso é sempre um improviso. Temos que estar prontos e esperar pelo pior, pois as coisas muitas vezes as coisas acabam acontecendo de modo que não havíamos planejado. Por isso não devemos nos preocupar se no final algo aconteça que seja completamente o contrário do que queríamos. Isso sempre acontece, sempre temos que mudar nossos planos para que a ação fique completa.

MEDUSA


Em uma de nossas aulas de direção estávamos conversando e debatendo ideias para escolhermos um tema, uma proposta para fazermos uma performance. Até que surgiu a ideia do Vinicius, nosso colega de classe de fazer uma corrida de saco na faixa de pedestre enquanto o sinal ficava vermelho.
Pegamos sacos de trigo que vinham na altura do joelho e “vestimos”. Teríamos que ir pulando com esses sacos até o outro lado da rua sobre a faixa de pedestres e quem chegasse primeiro seria o “vencedor”. Essa ação performática pode-se dizer ser uma crítica ao curto tempo que nós como pedestres temos para atravessar as ruas, temos que correr assim como na “corrida de sacos”.

Saímos então da UVV e fomos para um sinal em frente ao Shopping Vila Velha.
Primeiro nos comportamos como não fossemos fazer esta performance, escondemos o saco por dentro de nossas blusas e agimos naturalmente. Quando o sinal ficou vermelho começamos a performance tirando o saco de baixo das blusas e vestimos. Quando a Rafaela deu o sinal da largada fizemos a nossa competição. Teríamos que ir e voltar.
Foram diversas as reações das pessoas. Não só das pessoas que estavam de carro e moto parados no sinal mas como os pedestres também. Conseguimos colocar esse publico como questionadores, investigadores. Eles perguntavam o que era aquilo, de onde éramos, faziam comentários, alguns positivos e outros negativos. Uns falaram pra gente arrumar um trabalho, que estávamos atoa, outros falavam: “que massa!”, outros gritaval: “uhul”, mas a maioria reagia com risadas. Além disso, incrementamos nossa performance e fizemos outras brincadeiras como o “estátua”, dada a largada andávamos normal pela faixa e quando ouvíamos o comando do instrutor: “estátua”, deveríamos parar e congelar. A Rafaela então passava fazendo cócegas na gente e perde quem se mexer. Depois fizemos o morto e vivo: no morto teríamos que nos abaixar, no vivo teríamos que ficar em pé. Ganha quem fizer tudo correto sem errar ou se confundir. Foi muito legal essa mudança na hora, de acrescentar brincadeiras ali na hora, de improviso as pessoas achavam cada vez mais estranho e é esse estranhamento que a gente como performer buscava. Nossa meta foi atingida. Fomos com um propósito e conseguimos alcançá-lo.

Depois de um certo tempo, percebemos que foi formando uma concentração de pessoas que saim do shopping e de seus trabalhos e se aglomeraram no ponto de ônibus. Foi quando decidimos levar nossa performance para o ponto de ônibus. Fomos até lá agindo naturalmente, como também fôssemos pegar o ônibus. Nos misturamos no meio das pessoas e ficamos em estado de espera. De repente, a Rafa que fez a instrutora das brincadeiras gritou no ponto de ônibus: MORTO! E cada um de nós separados abaixamos imediatamente, depois ela gritava: VIVO! E todos nós ficávamos em pé. Foi incrível a reação das pessoas. Todos tomaram um susto pois estávamos espalhados no meio das pessoas e ninguém esperava essa nossa ação. Foi de surpresa e gerou um efeito muito cômico.

Para nós que estávamos fazendo esta ação também foi superprazeroso e divertido. Eu gosto muito de fazer algo inusitado, maluco, bizarro, etc. É engraçado ver as pessoas surpresas e curiosas.

Gostei também porque foi uma forma de lembrarmos da nossa infância, que foi a melhor e mais bonita parte da minha vida. Nossas brincadeiras não eram como as das crianças de hoje em dia. Essas brincadeiras de corrida do saco, morto e vivo, pula corda, pique-pega, esconde-esconde, andar de bicicleta, enfim, era tudo muito gostoso. Fazíamos tudo na rua e lembro sempre disso tudo com muito gosto e fico triste das crianças de hoje em dia terem perdido isso, na verdade sofreram também pela constante mudança que a própria sociedade vai construindo, vivemos hoje num mundo mais tecnológico. É interessante como cada objeto, música ou um lugar nos faz lembrar da nossa infância, assim como aqueles sacos me fizeram lembrar de toda a minha infância, foi como um flash-back passando na minha cabeça, uma viajem no túnel do tempo relembrando cada brincadeira de quando eramos pequenos.


Quando rever é reviver
Preciso reviver, eu bem sei,
mesmo que só na lembrança,
voltar à minha antiga casa,
rever a minha infância
e todos os momentos felizes que lá passei.” ( Clarice Pacheco)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Morfeu

Performance Morfeu


Através de estudos em sala de aula debatemos sobre performance. A performance não tem uma definição exata, mas podemos dizer que é uma forma de expressão artística que não necessariamente precisa estar ligada ao teatro, mas também com a dança, a música, a poesia ou até vídeo.Para Cohen (1989, p. 138), I I 38
O performer vai conceituar, criar e apresentar sua performance, à semelhança da criação plástica. Seria uma exposição de sua ‘pintura viva’, que utiliza também os recursos da dimensionalidade e da temporalidade.”
É importante destacar que uma performance não necessariamente precisa de ter um público. Ela pode também partir de um improviso, ou quando o ator percebe que aquela ação não gerou uma reação ele pode mudar completamente o que estava fazendo e partir para algo que consiga dar o efeito esperado. A performance também pode partir de dois estímulos. Um pode partir apenas do querer, do impulso, vontade, desejo. Se eu quero me vestir de coelho e sair pulando pela rua, eu saio. Isso não precisa ter um por quê, uma explicação eu apenas executo a ação por uma vontade própria. O outro estímulo pode estar ligado a uma política, uma crítica a alguém, uma revolta que a população ou um determinado grupo quer discutir. Neste caso a performance tem um motivo, uma política, como por exemplo fazer uma crítica ao governo, ou a saúde pública, ou a violência enfim, geralmente as pessoas gostam também de criticar algo que está acontecendo no momento e que perturba a maior parte da população.
A partir desses estudos sobre o que é performance, abrimos um debate em sala de aula com todos os alunos e discutimos o que cada um pensa, o que cada um gostaria de fazer numa performance. Surgiram várias ideias. Mas não foi difícil eleger uma. Escolhemos uma bem maluca, que é a nossa cara. Tivemos a ideia de espalhar colchões pelos corredores do prédio de direito e a princípio fingir que estávamos dormindo. Mas depois pensamos que não é assim tão fácil ter uma noite tranquila de sono, não são todas as pessoas que conseguem isso. Então surgiram várias ideias. O que eu faço na hora que estou tentando dormir? O que me perturba? Pode ser um pesadelo? Mas o que eu sinto e o que eu vejo nesse pesadelo? É uma risada? Gritos? Vozes? Passos? Sustos? Tudo isso pode passar na cabeça de uma pessoa antes dela dormir ou mesmo durante o sono, são as diferentes relações com o sono. Então fizemos exatamente isso. Cada um escolheu uma ação para ser sustentada durante cerca de 50 minutos. Eu dei sustos nas pessoas, Iasmin dava gargalhadas, Sarah cantava, etc. A nossa intenção foi quebrar o cotidiano das pessoas, de distanciá-las do que já estavam acostumados a ver, de sair do comum, do dia-a-dia. Mas duas duplas fizeram algo que me chamou atenção de uma outra forma. Foi a cena da Yule com o Jefferson onde eles quiseram demonstrar uma cena onde uma mulher era obrigada a manter relação sexual com o marido, um estupro talvez. Isso para mim não foi apenas romper ou quebrar o cotidiano das pessoas, mas sim um desabafo do que realmente acontece no nosso país e em tantos outros, uma polemica, uma forma de chamar atenção das pessoas, mas de forma a se pensar. Tenho certeza que se alguém ali já passou por algo parecido, ficou muito chocado e sensibilizado. A outra dupla foi o Vinicius e a Naiara que também me chamou atenção. Vinicius estava se masturbando e Naiara pintando as pernas de tinta vermelha como se estivesse tendo relação sexual pela primeira vez. Parando para pensar o ato de masturbação é um ato normal na fase adolescente/adulta, mas por ser um ato considerado por muitos que ali passavam como ato obsceno, gerou um estranhamento muito grande. Na minha visão como crítica, o estranhamento é algo necessário em toda performance. O sujeito que vê a ação precisa se sentir incomodado, ele precisa ter a curiosidade de investigar aquilo que está vendo que toma como “estranho”. Ele precisa se questionar. Se perguntar e até mesmo opinar e se sentir a vontade entrar nesse ato. Foi o que aconteceu com a ação da Carol. Ela convidava os alunos para deitarem no colchão com ela e faziam eles viajaram numa conversa maluca com ela. Foi lindo quando um deles aceitou e realmente entrou na conversa e assim também participou de forma efetiva na performance.
Porém não foi assim que a maior parte das pessoas reagiu. Muitos além de acharem estranhos. Revoltaram-se. Acharam desnecessário, ridículo, absurdo. Isso me motivou a querer fazer ainda mais, pois foi isso que me sustentou. As pessoas me olhando torto, dizendo que somos loucos, idiotas, que queríamos chamar atenção. E todos essas reações eram as que eu queria ver, queria instigar essa ira neles e até provocar. Pois é isso que uma performance exige. Se nada acontece não podemos chamar de performance nem mesmo de intervenção.
Uma outra questão a ser levantada e muito importante, é o preconceito. O próprio nome já diz : pré conceito. Antes mesmo de terem conhecimento do que era aquilo que estavam vendo, já nos julgavam. Ouvimos diversas vezes comentários do tipo: “Só pode ser esse pessoal de Artes Cênicas”, “Vocês poderiam estar em casa dormindo nesse dia de chuva, mas estão aqui”, “Que ridículo” e tantos outros. Vimos ainda mais a ignorância dos alunos por desconhecerem a arte. Até mesmo professores que foram reclamar desse nosso ato e dizer que estávamos atrapalhando. Gosto da ideia de trabalharmos dentro da Universidade, acho que esses impactos devem ser causados principalmente nos jovens que são os que mais carregam o preconceito. Mas acho que deveríamos explorar outros lugares. Ir para as ruas mesmo. Fechar uma rua. Usar uma faixa de pedestres. Tomar conta de uma pracinha, um terminal de ônibus, rodoviária até aeroporto. Quero ver a reação das pessoas de fora da Universidade. Será que terão a mesma visão? Temos que abranger novos públicos e mostrar nosso trabalho para novas pessoas e receber novas críticas.