No encontro de hoje fizemos uma discussão sobre elementos da interpretação para cinema e como podemos chegar nesses elementos. O que primeiro foi discutido foi o Naturalismo, sabemos que o naturalismo é uma poética muito usada no cinema, ser natural é um procedimento e para chegarmos ao estado natural precisamos de uma construção. O natural imita o cotidiano, o naturalismo foi muito criticado pelas Vanguardas por mostrar uma sociedade que não existia, porém o que se imita no naturalismo é sim o cotidiano das pessoas, sua voz, seu andar, seu comer e etc.. Atores naturalistas imitam as ações deles mesmo em sua vida cotidiano. Por exemplo, na Commedia Del'arte os gestos dos atores são completamente grandes, eles não fazem nenhuma mimese do dia a dia, se forem fazer uma cena de uma pessoa pensando eles vão fazer gestos que reforçam a ideia de que a pessoa está pensando,e esses gestos são grandes. No teatro naturalista e no cinema é diferente, se o ator quer mostrar que o personagem está pensando, ele vai primeiro analisar como ele enquanto ator pensa no seu dia a dia para depois construir a ação do pensar do personagem. Seus gestos serão menores e o que sustentará a cena também, será o apoio interno que o ator vai utilizar para a cena.
Discutimos também sobre a imobilidade do ator em cena. O que se questiona é como a imobilidade pode ser um elemento do cinema sendo que ela causa um estranhamento, como foi dito antes, o cinema é a mimese do cotidiano, então como pode existir cinema hoje que busca esse tipo de poética? Responderei essa pergunta com a seguinte afirmação: O cinema e a interpretação são construções e além disso são práticas de sustentar o pensamento em cena, portanto, para discutirmos se a imobilidade é ou não um elemento do cinema, pergunto: O que é o ser humano pensando? Será que no nosso cotidiano, quando estamos pensando sempre trazemos uma imagem familiar? Ou será que enquanto estamos pensando no nosso dia a dia também trazemos uma imagem de estranhamento?
Outro elemento importante e que se usa muito no cinema é a visualidade do pensamento, a visualidade do pensamento parece ser a mais fácil de ser alcançada para mim. Se formos compará-la com a escuta, perceberemos que é muito mais fácil você ver algo em sua mente enquanto fala do que ouvir uma coisa e falar outra coisa durante a cena, querendo ou não a escuta requer duas vozes, a voz interna e a voz externa, já a visualidade, requer uma voz e uma imagem. Apesar de ser mais fáicl para mim, precisa ser pesquisado se isso acontece com outros atores também.
Uma ajuda para chegarmos a visualidade do pensamento seria a divisão do foco que a Spolin tanto fala, se conseguirmos trazer uma imagem e dividir o foco durante a cena, conseguiremos chegar a uma poética cinematográfica.Gosto de pensar que essa divisão do foco que a Spolin menciona não é só usado pelo corpo, mas sim pela mente, pois se eu penso uma coisa e falo outra, eu também estou dividindo o meu foco.
A sujeira é muito discutida e contrariada no cinema, pois normalmente o que se é discutido é que no cinema menos é mais, porém a sujeira vem para desbancar isso, alguns filmes trazem uma poética muito bonita tendo muita sujeira, muitos gestos, muitas falas sobre outras, muitas ações sobre outras e etc.. Um exemplo de filme assim é "Entre os muros da Escola". Como chegar a essa poética? Diria que seja a apropriação com o contexto da cena com algo que seja do ator, a Hagen reforça essa ideia dizendo: "Toda fase de pesquisa do papel requer incontáveis substituições apartir da experiência de vida (...) Nenhum diretor pode ajuda-lo em suas substituições, pois ele não foi parte de sua experiência de vida."
Se formos parar para pensar, cada ator que fez o filme Entre os muros da escola já viveu um momento de sua vida em sala de aula, então acredito que eles usaram os registros dos seus comportamentos para compor os personagens.
Uma ideia de exercício a se fazer a partir do que foi discutido é dividirmos a sala em grupos e jogarmos como se fosse o jogo da mímica: Dois grupos escolhem temas e representam, o grupo 1 tem que adivinhar o que o grupo 2 está representando. Porém em vez de fazermos representações, faremos o seguinte:
Dividiremos um texto para cada grupo e o grupo terá que escolher ou a sujeira, ou avisualidade do pensamento, ou a imobilidade para ser usada em cena. O outro grupo terá que descobrir o que o grupo que está em cena está usando.
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