sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Corpo 10/9//2014 por Rejane

Foi engraçado como descobri o procedimento. Nos aquecemos em roda. Pedi que explorassem o “marionete” – no Espelho (Spolin). Senti que estava rolando, eles estavam produzindo um gestual interessante. Pedi para trabalharem contorções. Em seguida trocar. E pedi para que introduzissem o texto – os dois falando, cada um o seu, enquanto mantinham o gestual. Foram falando e fazendo. Pedi para um falar e o outro repetir o seu texto. Pedi para que um deles introduzisse os gestos enquanto o outro falasse.

Pedi que trabalhassem a memorização desta vez com material pessoal. Dei o exemplo da lua. A lua me lembra... a praia de Canasvieiras.... eu com o meu primeiro namorado, quando descobri tudo. E se coloco o nome dele como fala interna.... isto me enche de afeto. Coloquei música, pedi para que eles mergulhasse em sua vida – em imagens de sua história de vida para escolher as falas internas.

Quando fomos trabalhar a cena, partimos do mesmo arranjo do dia anterior... a regra de jogo. O texto estava mais firme. Fluiu, mas seco, sem vida, sem nenhum tipo de “apropriação” no sentido do enlaçamento do afeto. A apropriação depende da construção subjacente – que enlaça. Ou a palavra fica vazia. Não sem sentido (o sentido está lá), mas sem valor.

Então eu demonstro a coreografia (a partitura, a marcação). Sem perceber faço exatamente o que fizeram no exercício do espelho: um fala a frase e outro conduz o gestual. Pedi para que Sarah falasse as frases, uma por uma – enquanto eu ia inventando os movimentos, para depois ela repetir. Quando ela repetiu, introduziu as falas, mesmo sem que eu pedisse. E ficou muito bonito. As falas vieram com vida.

O mesmo fiz com  Gilberto, Yule, Rafaela.

A música do Orlafur parece que tem tudo a ver com Romeu e Julieta. Traz uma atmosfera que casa com uma espécie de vertigem, de exacerbação.

Daí penso eu sobre o que me leva construir os gestos desta maneira. São gestos grandes, bem desenhados, com diversos planos – a variação dos planos é uma característica marcante. Também um certo valor de signo que o gesto pode assumir, do afeto. Da exacerbação (se poderia dizer, romântica). Como andar em círculos com os braços abertos no “Vem noite de escuras sombrancelhas” ou rodar o braço diversas vezes e bater com o punho fechado na coxa no “deixe-me andar...." da Rafaela. O tom exacerbado da fala encontrou par no corpo. O corpo responde a este estilo, a este excesso – que já estava na fala. Como se não fosse possível falar aquele texto sem “se rasgar”. E o gesto (deste jeito) acaba cumprindo função do signo deste “rasgar”. Tem algo de potente, de forte, de “radical” nestes gestos. Parece ser gestos que envolvem todo o corpo, toda a sua forma, que jogam o sujeito no chão, pelas paredes, de costas... a mostrar uma faca. Em seguida se jogar nos pés do padre, se levantar e virar de costas, etc. O homem parece um motor de movimentos. Um sujeito que se contorce, se joga no chão, rola, sobe, desce.... torna-se signo de algo do qual Shakespeare fala? Um corpo à mercê e em função do que a alma poderia estar ditando. O corpo torna-se um signo do movimento da alma.

No final falei em “ação física”. Shakespeare é “muito ação física” eu disse. Tem algo de "dilatado" (Barba) nisto.

Antes memorizaram pela escrita e fizeram o processo de associações internas. O texto estava ali – pronto para ser dito, já com as suas articulações com a história do sujeito. Ele sai, acomodado no gesto e então assume outra forma (outra ação e outra entonação) – como no caso em que Gilberto abraça sua filha Julieta. A voz muda. Neste sentido, existe uma escuta do gesto, para que a ação interna imprima outra voz. 

Vou pensar sobre tudo isto porque com Shakespeare – e este gestual da exacerbação do afeto (deste gestual que se torna signo do afeto demasiado) – não é preciso o foco na fala interna. Creio que não. A fala interna foi feita e enlaçou a memória (e o corpo) do ator. O suficiente para que o texto possa ser dito sem desconforto. Mas ele está apoiado (aqui o apoio é externo); o apoio é uma imagem, um desenho do corpo sim, mas ainda a imagem, a minha própria imagem fazendo o gesto, que é incorporada – e vem de encontro com o texto.

Fico imaginando como é capaz de ficar bonito, a ênfase na construção deste corpo, signo do afeto, da exacerbação do afeto. Este "corpo coreográfico" que não pára, que é movimento, mas não puro, é ação física no conceito da integração dentro-fora – porque o fora implica uma escuta (dentro).

Temos algo interessante para pensar aí – que é este trabalho minucioso de marcação, e que entra como uma regra de jogo. E o processo de apropriação, de inspiração e preenchimento do aluno/ator. 

Como sustentar este processo não como algo impositivo, mas como um repertório que se abre para eles, como um caminho – e que será apropriado, usado, gasto, organicizado, vivido?

Entra-se em uma questão interessante – que é da apropriação do desenho corporal vindo do outro (o exercício do Espelho da Spolin), com o que esta implica de valor e identificação. 

É uma questão complexa, que não vou entrar agora. De qualquer maneira, metodologicamente, se pensa em “abertura de repertório”. Lembro-me das aulas do Bulhões quando ele defendia o que chamou de “acupuntura” – quando lançava mão, no processo de criação com os alunos, da mimese de movimentos de Pina, Zé Celso, Wilson e outros. Ele defendia a abertura de repertório do aluno e a responsabilidade do professor de abrir esta perspectiva (ao invés de acomodar-se na pseudo liberdade e autonomia de criação que daria aos alunos). Se tudo é construção, porque não mostrar e apresentar alguns caminhos de apropriação de um gestual novo – que será organicizado e constituído como seu em um segundo momento?


Esta questão articula outras: a do ator-marionete (o ator que vai pelo desenho), a questão da ação física (o foco na borda externa do corpo na medida em que “dentro” se associa coisas e se enlaça afetos, se atualiza coisas também). São várias questões implicadas. Também a questão da especificidade do trabalho com a dramaturgia do Shakespeare. 

Importante destacar que está em jogo (reciclado) um repertório que vem do treinamento com a dança. Importante também destacar que foi em determinado ponto do processo (com um mês de trabalho) que este procedimento teve início. A partir de um repertório comum de regras de jogo (como o “pega e larga”) e também da imagem das cenas já constituídas por eles quando os seus corpos estão a meio caminho de se inscrever em uma poética.

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